
RIO NEGRINHO. Durante o primeiro Painel de Diabetes promovido pela Procuradoria da Mulher, da Câmara de Vereadores, em parceria com a Associação Convivendo com Diabetes de Rio Negrinho no início deste mês , um momento silencioso e cheio de significado nasceu fora dos holofotes: o advogado Cleverson Vellasques, presente na plateia, foi tocado pelas histórias compartilhadas no evento e, ao lado da filha Agatha Valentina, transformou emoção em poesia.
Ao Nossas Notícias, ele conta que Agatha vive com diabetes tipo 1 desde muito nova. Ao ouvir os relatos e sentir a intensidade das falas durante o painel, Cleverson percebeu que algo dentro dele pedia tradução. “A inspiração nasceu ali mesmo, ouvindo cada emoção. Ao chegar em casa, chamei minha filha e disse: ‘Vamos escrever juntos o que senti.’”
O resultado foi um poema que une dor, amor, fé e resistência. “A poesia é um jeito de tornar a vida mais leve. De olhar para tudo que machuca e conseguir enxergar ali também beleza, força, ternura”, compartilha.
Cleverson, além de poeta, advogado e presidente da Academia de Letras do Brasil de Santa Catarina – Seccional de Rio Negrinho , é também ultramaratonista — e afirma que a vivência com a filha o transformou. “Corro longas distâncias porque não posso trocar de lugar com ela. Então a dor precisa de tradução. A poesia é uma delas. A corrida, outra”, diz.
A seguir, o poema escrito a quatro mãos por pai e filha — um retrato profundo do que significa vigiar com amor e viver com esperança:
Agulhas de Esperança
No silêncio da infância adormecida
um sopro cortou a noite
não era sonho
era sede demais, dor demais
era o corpo pedindo socorro em voz baixa
Era dezembro, dezembro das gotinhas
glicemia alta demais, alta até o céu
era natal, que não trouxe brinquedo
mas trouxe um medo cruel.
A menina de olhar tão doce
entendeu que viver às vezes dói
que para brincar precisa de horário
que as picadas tornam-se rotinas
e para sobreviver é necessário insulina.
Filha, mãe, irmã, esposa, amiga, flor e luta
em seu nome carrega coragem em seu ventre
em cada furo na pele
nasce uma pétala de resistência.
Filho, pai, irmão, marido e amigo
agiganta-se a formação de um homem
que dorme não mais por inteiro
que vigia com a fé dos justos.
Aprendeu a calcular doses
a medir esperança
a fazer das madrugadas o seu altar
rezando por mais um dia
um dia com glicemia estável
um dia sem glicemia traiçoeira.
Eis que nasce um grito que ecoa por todos os rincões
ela merece viver bem
não é conforto
é sobrevivência
não é luxo
é direito
Estamos aqui no parlamento e pelo mundo
todos de mãos dadas, ainda que em silêncio
para pedir aos autoridades constituídas
que não há orçamento mais nobre do que o orçamento da vida.
Declamo por vocês DM1’s
declamo por todos aqueles que respeitam
cada gota de sangue usada como forma de amor
declamo pelos que conhecem a infusão de insulina
antes mesmo do que o primeiro beijo,
pelos que convivem com os anjos em suas casas
E se me perguntarem o que é poesia eu digo:
é você ver sua filha dormir e mesmo assim
permanecer acordado.
Inverno de 2025
por C.J. Vellasques.
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