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"Ideias para adiar o fim do mundo", é dica de leitura de Lahra Batista

RIO NEGRINHO. Dando continuidade à nossa série “Histórias para Ler em Tempos de Crise”, em parceria com a Academia de Letras do Brasil de Santa Catarina Seccional Rio Negrinho, hoje a “história” é uma dica de leitura da imortal Lahra Neves Batista, que fala sobre ” Ideias Para Adiar o Fim do Mundo”, escrito por Ailton Krenak e publicado pela editora Companhia das Letras em  2019. Você também pode OUVIR essa resenha clicando no link no final deste texto. “Ideias Para Adiar o Fim do Mundo é um livro que reúne palestras de Ailton Krenak realizadas em vários locais. O pressuposto do texto não é servir de um receituário para momentos de crise, mas sim deslocar o olhar para as relações distanciadas entre ser humano e natureza. E que em momentos de crises, sejam elas quais forem, nos chamam a refletir sobre nossos laços com o mundo. Krenak adverte que nos distanciamos muito da natureza a ponto de utilizá-la, mas nos dedicamos pouco em conhecê-la, e os indígenas caminham no sentido inverso, possuem uma relação muito próxima da natureza, logo, possuem uma visão de mundo diferente; e os leva a buscar soluções alternativas para os problemas do mundo. No entanto, as visões indígenas são por vezes desconsideradas e/ou menosprezadas. Os argumentos colocados por Krenak no livro se voltam para a sociedade moderna, que chegando ao Brasil no processo de colonização compreendia a natureza como algo a ser conquistado, objeto a ser transformado em mercadoria. O reflexo destas ações, contribuiu para que os povos indígenas aqui no Brasil, fossem submetidos de forma sistêmica ao longo dos últimos 500 anos, a diversos tipos de violências que vão desde a perda do território, perda de identidade e da própria vida. Todavia, estes povos continuam existindo (ou resistindo), não nas mesmas condições de antes, estão resilientes e mantém sua forma de viver. Portanto, quem melhor que eles para nos mostrar como resistir ao fim do mundo? Para o povo Krenak a terra, é como a mãe que conhece a vida, e neste processo cada ser vivo, cada rio, cada montanha tem sua importância e seu grau de parentesco com esse grupo indígena. Como é o caso do Rio Doce, chamado por eles Watu, o avô. A resiliência deste povo que mesmo vendo seu parente em coma não desiste de suas vidas, e nem da humanidade que lhes causou tantas dores. Ailton Krenak propõe ideias para adiar o fim do mundo Esse adiar está direcionado a humanidade, pois a terra seguirá em frente, com as pessoas ou sem elas. Conforme o autor, nem sempre habitamos o planeta, e podemos deixar de habitá-lo, e esta forma de crise, de queda já foi enfrentada pelos povos indígenas, as demais culturas ainda não. O fim do mundo para Krenak seria como uma queda, e para ele, sobreviver a uma queda é necessário aprender a construir um paraquedas. Para ele, um paraquedas é olhar para o mundo de outra forma, através dos sonhos, mas não sonho como algo onírico, da fantasia, do subconsciente, mas encontrar nas ideias, outra forma de se relacionar com o mundo e com aqueles que o habitam. Trechos Relevantes do Livro Página 26 Nosso tempo é especialista em criar ausências: do sentido de viver em sociedade, do próprio sentido da experiência da vida. Isso gera uma intolerância muito grande com relação a quem ainda é capaz de experimentar o prazer de estar vivo, de dançar, de cantar. E está cheio de pequenas constelações de gente espalhada pelo mundo que dança, canta, faz chover. O tipo de humanidade zumbi que estamos sendo convocados a integrar não tolera tanto prazer, tanta fruição de vida. Então, pregam o fim do mundo como uma possibilidade de fazer a gente desistir dos nossos próprios sonhos. E a minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma história. Se pudermos fazer isso, estaremos adiando o fim. Página 69  E nós criamos essa abstração de unidade, o homem como medida das coisas, e saímos por aí atropelando tudo, num convencimento geral até que todos aceitem que existe uma humanidade com a qual se identificam, agindo no mundo a nossa disposição, pegando o que a gente quiser. Esse contato com outra possibilidade implica escutar, sentir, cheirar, inspirar, expirar aquelas camadas do que ficou de fora da gente como “natureza”, mas que por alguma razão ainda se confunde com ela. Tem alguma coisa dessas camadas que é quase-humana: uma camada identificada por nós que está sumindo, que está sendo exterminada da interface de humanos muito-humanos. Os quase-humanos são milhares de pessoas que insistem em ficar fora dessa dança civilizada, da técnica, do controle do planeta. E por dançar uma coreografia estranha são tirados de cena, por epidemias, pobreza, fome, violência dirigida. Reflexões O texto por mim escolhido para compartilhar, acredito ser uma leitura necessária para este momento. Vivemos um período de incertezas econômicas, sociais e agora uma nova incerteza em relação a saúde e a vida, devido ao novo vírus que circula e nos colocou dentro de nossas casas para nos cuidarmos, pois ainda não há tratamento. Relaciono este momento vivenciado por nós, com o fim do mundo descrito pelo autor, uma crise, uma queda, sairemos diferentes desta experiência, teremos de resistir e nos refazer, algo parecido com o que os indígenas já enfrentaram e possuem experiência para dividir conosco. Ailton Krenak nos chama a repensar nossas relações, não só entre nós, os seres humanos, mas fundamentalmente com o mundo que vivemos. Os indígenas entendem ser parte da natureza, e seria a natureza uma grande mãe que nos abraça. E nós ditos civilizados, como olhamos para o mundo, com o respeito com que olhamos para nossas mães? Ou com olhar distante, sem admiração? O texto permite pensar, também, sobre as questões ambientais, a fadiga que causamos no planeta. Além de o texto fazer uma valorização da ancestralidade, dos conhecimentos que vem da nossa cultura, e da história, e o quanto hoje desconsideramos este enlace com a aquilo que nos antecedeu, vivemos um período da rápida comunicação, do desenvolvimento de técnicas para nos prepararmos para o futuro, não deixamos tempo para as lições da história, e acredito que ao continuarmos agindo assim, nos colocamos no caminho do fim do mundo, para usar a expressão do autor indicado. Boa leitura a todos! Lahra Neves Batista  é professora de Sociologia da Rede Estadual de Ensino e mestranda em Sociologia na Universidade Federal do Paraná.  OUÇA A RESENHA DO LIVRO, GRAVADA POR LAHRA clicando no link abaixo: https://anchor.fm/nossas-not%C3%ADcias-oficial/episodes/Episdio-2-com-Lahra-Neves-Batista–Ideias-para-adiar-o-fim-do-mundo–dica-de-leitura-eci8vm Quem é Ailton Krenak Ailton Krenak (66 anos) é líder indígena do grupo Krenak, residente as margens do Rio Doce, em Minas Gerais. Teve papel central na luta dos povos indígenas na década de 1980 que resultaram na garantia de direitos presentes, hoje, na Constituição Federal. Tem vários programas e projetos de aliança dos povos das florestas, na defesa do meio ambiente, e seu pensamento está embasado na cultura e tradição indígena. CONFIRA O EPISÓDIO 1, COM JÚLIS HORÁCIO FELIPE clicando no link abaixo:  http://nossasnoticias.com.br/2020/04/04/historias-para-ler-em-tempos-de-crise-estreia/

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