
RIO NEGRINHO. Aos 28 anos, o rio-negrinhense Renato Denck carrega lembranças de uma realidade que poucos brasileiros tiveram a oportunidade de conhecer de perto. Natural e morador de Rio Negrinho, ele deixou a tranquilidade de sua cidade natal para atuar como voluntário humanitário na Ucrânia, país que enfrenta uma guerra contra a Rússia desde fevereiro de 2022. Durante sua passagem pelo território ucraniano, enfrentou alertas de bombardeios, conviveu com o risco constante de ataques e participou de operações de assistência à população civil. Entre as atividades relatadas estão a distribuição de alimentos, o apoio à reconstrução de estruturas danificadas e a retirada de vítimas de áreas atingidas por mísseis e drones.
Em entrevista à equipe do portal Nossas Notícias, Renato compartilhou os bastidores dessa experiência, falou sobre o impacto emocional de presenciar as consequências da guerra e revelou que recebeu um convite para integrar um novo projeto humanitário, desta vez na África.
Apesar das situações extremas enfrentadas, afirma que não se arrepende da decisão de ter viajado à Ucrânia.
“Não me arrependo de nenhum dia do que vivi na Ucrânia. Foi uma experiência que me marcou profundamente e contribuiu para formar a pessoa que sou hoje. Aprendi muito sobre a vida, sobre os limites humanos e sobre o valor de ajudar o próximo”, declarou.
A trajetória de Renato até a região do conflito começou com atividades desenvolvidas a distância. No final de 2025, ele participava de projetos internacionais ligados à tecnologia, envolvendo aproximadamente 60 profissionais de diferentes países. O trabalho incluía o desenvolvimento e a utilização de softwares para acompanhamento de reformas institucionais, monitoramento de possíveis irregularidades e identificação de casos de corrupção. Segundo o catarinense, durante essas atividades, a equipe também identificou denúncias graves de tráfico humano envolvendo crianças.
O contato com pessoas envolvidas nesses projetos acabou abrindo caminho para um processo de recrutamento militar. Renato participou de entrevistas, recebeu autorização para admissão e passou por uma preparação física e psicológica. Para chegar à Ucrânia, percorreu um trajeto que incluiu Alemanha e Polônia, passando pela região fronteiriça de Przemyśl e Medyka.
Entretanto, após entrar em território ucraniano, decidiu não integrar as forças armadas. A possibilidade de assumir compromissos militares prolongados e de ser direcionado a funções de combate o levou a buscar outra maneira de contribuir.
“Meu objetivo sempre foi ajudar. Eu não estava procurando obter benefícios pessoais, reconhecimento ou qualquer vantagem. Queria contribuir com aquilo que sabia fazer”, explicou.
A escolha foi atuar diretamente em iniciativas civis, colaborando com organizações humanitárias e voluntários de diferentes nacionalidades.
Renato conta que suas primeiras atividades foram desenvolvidas junto a uma organização dedicada ao apoio logístico e à recuperação de localidades afetadas pela ocupação russa.
O trabalho envolvia o transporte e a distribuição de suprimentos, a retirada de entulhos e a recuperação de estruturas essenciais para as comunidades. Segundo ele, profissionais com conhecimentos práticos, como eletricistas, encanadores e trabalhadores da construção civil, desempenhavam funções importantes na recuperação das áreas destruídas.
Com o passar dos dias, sua atuação passou a incluir atividades mais delicadas: a assistência direta às vítimas de ataques.
O rio-negrinhense afirma que participou de trabalhos de remoção de escombros, buscas por pessoas soterradas e recuperação de corpos em locais atingidos por bombardeios. A experiência exigia preparo físico, atenção constante e capacidade de tomar decisões rápidas, muitas vezes diante da escassez de equipamentos e profissionais.
“Você precisa continuar trabalhando, mas não pode ignorar o que aquilo provoca em você”, relatou, ao descrever o impacto psicológico causado pelo contato frequente com a morte.
Durante sua permanência no país, Renato esteve em Lviv, Kyiv (Kiev) e localidades próximas a regiões afetadas pelo conflito. Por questões de segurança, optou por não divulgar os nomes de determinadas organizações e instalações com as quais manteve contato.
Entre os episódios mais difíceis, Renato destaca os acontecimentos da madrugada de 14 de maio de 2026, quando a capital ucraniana foi alvo de um ataque russo de grandes proporções. A ofensiva envolveu mísseis e drones e provocou a destruição de parte de um edifício residencial de nove andares no distrito de Darnytskyi, em Kyiv.
Renato afirma que presenciou as consequências dessa ofensiva e participou de atividades de assistência às vítimas.
“As sirenes eram constantes e ensurdecedoras”, recordou.
Segundo ele, ao chegar às áreas atingidas, os voluntários encontravam edifícios destruídos, pessoas soterradas e famílias desesperadas em busca de informações sobre seus parentes. O cenário era agravado pelo risco de novos ataques e pela necessidade de agir rapidamente.
Ele também relatou que um comboio foi atingido durante os acontecimentos, mas afirmou não ter informações suficientes para determinar quantas pessoas sobreviveram ao episódio.
Um dos aspectos mais difíceis da experiência, segundo Renato, não foi apenas conviver com o perigo, mas reconhecer que, mesmo com todos os esforços, nem sempre era possível salvar as vítimas. Em determinadas situações, os voluntários precisavam escolher quais atendimentos poderiam realizar primeiro, levando em consideração a gravidade dos ferimentos, o risco de novos bombardeios e os recursos disponíveis. Ele descreveu a sensação de impotência diante de pessoas que precisavam urgentemente de socorro.
“Às vezes, você percebe que uma pessoa pode ter apenas alguns minutos de vida. Você tenta ajudar, mas há outras pessoas precisando de assistência ao mesmo tempo”, contou.
O peso dessas decisões, afirma, permanecia mesmo depois de encerrado o trabalho.
“E, depois, vem a culpa. Você se pergunta se poderia ter feito algo diferente, se poderia ter chegado antes ou se outra decisão teria mudado o resultado.”
Ele também destacou que a exposição prolongada a situações extremas pode provocar consequências psicológicas duradouras. Durante sua atuação, recebeu orientações de voluntários mais experientes sobre a importância de reconhecer os próprios limites.
Entre as lembranças mais dolorosas estão os objetos pessoais encontrados nos locais destruídos. Renato recorda ter visto pertences de crianças e fotografias de famílias em meio aos destroços, imagens que, para ele, representam a dimensão humana da guerra.
Em outra ocasião, durante uma evacuação, conheceu uma menina que estava acompanhada da mãe. Mesmo enfrentando uma situação de insegurança, a criança demonstrou preocupação com a integridade física do voluntário. Ela também contou que não via o pai havia bastante tempo.
O encontro ficou marcado na memória dele pela capacidade da criança de demonstrar preocupação com outra pessoa em meio ao próprio sofrimento.
Renato também ouviu o relato de uma mãe que segurava o filho já morto nos braços e procurava preservar sua dignidade, cobrindo seu rosto com um véu. Para ele, são histórias que ajudam a compreender que as consequências da guerra vão muito além das estatísticas de mortos e feridos.
“Você começa a entender que os números divulgados nas notícias representam pessoas concretas. E, quando está no local, essa realidade deixa de ser abstrata”, afirmou.
A rotina de Renato na Ucrânia era muito diferente daquela que conhecia no Brasil. Segundo o voluntário, a alimentação frequentemente se resumia a itens leves, que podiam ser transportados durante os deslocamentos.
Em sua mochila, costumava carregar um kit de primeiros socorros, água, bananas e barras de cereais. Quando possível, levava sanduíches, que também dividia com pessoas necessitadas.
A comunicação era realizada com o auxílio de um rádio fornecido pela organização. O uso de celulares exigia cautela, já que dispositivos conectados poderiam representar riscos de localização em determinadas situações.
O sono também era prejudicado pelos alertas de ataques e pela necessidade de permanecer atento ao ambiente.
“Não existe a mesma separação entre trabalho e descanso que existe em uma vida normal”, descreveu.
Ao ser questionado se chegou a acreditar que poderia morrer, Renato respondeu que tinha consciência dessa possibilidade desde o momento em que atravessou a fronteira.
“Não entrei na Ucrânia com a certeza de que voltaria vivo”, afirmou.
A distância da família e das pessoas próximas também fazia parte das dificuldades. Ele contou que, em diversos momentos, pensou na possibilidade de não retornar ao Brasil e imaginou como seria seu último abraço nas pessoas que amava.
Mesmo diante do medo, procurava concentrar sua atenção nas atividades e na segurança das pessoas ao seu redor.
De volta a Rio Negrinho, Renato afirma que a experiência na Ucrânia trouxe aprendizados que continuarão fazendo parte de sua vida. O contato com famílias que perderam suas casas, crianças afetadas pelo conflito e pessoas que precisavam reconstruir a própria existência fez com que passasse a valorizar ainda mais aspectos cotidianos, como segurança, alimentação, eletricidade e a oportunidade de dormir tranquilamente.
Segundo ele, estar em uma região de guerra também mostrou a importância da solidariedade e de habilidades que, em circunstâncias normais, podem parecer simples.
Um reparo elétrico, o transporte de alimentos ou a retirada de entulhos podem representar uma diferença significativa para uma comunidade que perdeu parte de sua infraestrutura.
“Eu não voltei da Ucrânia sendo exatamente a mesma pessoa que entrou naquele país”, declarou.
O catarinense ressalta que a experiência não apagou suas lembranças difíceis, mas contribuiu para o seu amadurecimento pessoal.
“Foi uma experiência dura, sem sombra de dúvidas, mas que levarei comigo para sempre.”
Após retornar ao Brasil, rio-negrinhense recebe convite para projeto na África
A passagem pela Ucrânia também proporcionou a Renato contato com pessoas de diferentes países que compartilham o interesse pelo trabalho humanitário.
Por meio dessas relações, ele recebeu um convite para participar de um projeto na África, possibilidade que considera para o futuro. Apesar do interesse, o rio-negrinhense explica que ainda não existe uma decisão definitiva sobre uma nova viagem.
“Acabei conhecendo pessoas que compartilham dos mesmos objetivos e recebi um convite para participar de um projeto na África. São planos para o futuro, porém, neste momento, existem objetivos pessoais que preciso cumprir”, contou ao Nossas Notícias.
Ele não detalhou o país africano onde o projeto seria realizado nem a natureza das atividades previstas.
Por enquanto, pretende se dedicar a compromissos pessoais, sem descartar a possibilidade de voltar a participar de iniciativas internacionais de assistência humanitária.
*Rio-negrinhense aproveita sua história para incentivar a doação de sangue*
Além de compartilhar as experiências vividas na Ucrânia, Renato fez questão de utilizar a entrevista para transmitir uma mensagem de solidariedade.
O catarinense pediu que sua história também servisse como incentivo à doação de sangue, um gesto que pode contribuir diretamente para salvar vidas.
O procedimento é realizado em etapas para garantir a segurança de quem doa e de quem recebe o sangue.
Inicialmente, o voluntário realiza um cadastro e responde a um questionário sobre suas condições de saúde. Em seguida, passa por uma avaliação preliminar, que inclui a verificação de peso, temperatura, pressão arterial, frequência cardíaca e hemoglobina.
Posteriormente, ocorre uma entrevista individual e sigilosa com um profissional de saúde habilitado, responsável por avaliar o histórico clínico e verificar se a pessoa está apta a doar. Somente após essas etapas e a confirmação da aptidão é realizada a coleta.
A doação é fundamental para manter os estoques dos hemocentros e atender pacientes que necessitam de transfusões, incluindo vítimas de acidentes, pessoas submetidas a cirurgias e pacientes em tratamento de diferentes doenças.
O pedido de Renato reforça uma mensagem presente em toda a sua trajetória: ajudar o próximo não exige necessariamente viajar para outro país ou enfrentar situações extremas.
Para quem deseja contribuir, procurar um hemocentro e verificar os requisitos para doar sangue pode ser um primeiro passo.
Depois de testemunhar de perto as consequências de um conflito armado, o rio-negrinhense acredita que a solidariedade é um dos valores mais importantes que sua experiência lhe deixou.
“Aprendi muito sobre a vida, sobre os limites humanos e sobre o valor de ajudar o próximo”, concluiu.
