
RIO NEGRINHO. Setembro chega ao fim, mas o cuidado com a saúde mental não pode terminar junto com a campanha. Para encerrar a série especial produzida pelo Nossas Notícias durante o Setembro Amarelo, a equipe conversou com a psicóloga Graciane de Oliveira sobre prevenção, acolhimento, os sinais que não devem ser ignorados e, principalmente, sobre como transformar uma discussão que ganha força durante um mês em um cuidado presente durante todo o ano.
Graciane é psicóloga clínica há 18 anos, com ênfase em infância e adolescência, professora e coordenadora do curso de Psicologia da Univille, em São Bento do Sul, e também atende no Espaço Integrar, em Rio Negrinho. Para ela, o Setembro Amarelo teve um papel importante ao colocar em discussão um assunto que, historicamente, foi cercado por silêncio e preconceito.
“Historicamente, a gente criou um mês para falar de algo que a sociedade passou séculos mandando esconder. Na Idade Média era pecado, no século XIX era crime e fraqueza moral. A campanha foi um avanço para tirar do silêncio”, explica.
O desafio, segundo a psicóloga, é impedir que a mobilização termine quando setembro acabar. Graciane chama a atenção para o risco de transformar um problema permanente em uma preocupação restrita ao calendário.
“Acabamos transformando um problema estrutural em evento de calendário. A sociedade capitalista contemporânea produz sofrimento o ano todo — metas inalcançáveis, isolamento digital, luto sem tempo de viver o luto, trabalho precarizado, exigência de alta performance em diversos espaços — e oferece cuidado apenas em setembro.”
Para ela, a mudança passa por levar o acolhimento para os espaços onde a vida acontece diariamente. “Precisamos desinstitucionalizar o cuidado. Não é só CAPS e psicólogo, é mudar a organização social que adoece o ser humano. Cuidado contínuo é criar na empresa, na escola, na família, espaços para falar de angústia e não deixar que isso tudo estoure em setembro”, afirma.
A prevenção, portanto, precisa começar antes que uma pessoa chegue a uma situação de crise. Ao abordar o assunto, Graciane cita o sociólogo Émile Durkheim e sua obra sobre o suicídio, publicada ainda no século XIX, para reforçar a importância de observar também o contexto social em que o sofrimento se desenvolve.
“Ninguém acorda num dia e decide finalizar a própria vida. Existe uma história que antecede e algo se perdeu. Antes da crise existem meses ou anos de sofrimentos sociais, como desemprego, violência doméstica, LGBTfobia, racismo, endividamento, perda de sentido no trabalho”, pontua.
Na avaliação da psicóloga, quando a atenção surge somente diante de uma crise, muitos vínculos importantes podem já estar fragilizados. “Se a gente só age na crise, a gente age quando todos os vínculos já romperam. Prevenção primordial é agir nas causas sociais, conhecer o território onde o sujeito habita, como estão suas questões sobre moradia, trabalho digno, pertencimento. Prevenção antes da crise é política pública de qualidade.”
Mas antes de uma situação chegar ao extremo, algumas mudanças no cotidiano podem indicar que uma pessoa está enfrentando sofrimento. Graciane lembra que a própria sociedade, durante muito tempo, ensinou as pessoas a esconderem o que sentem.
“Historicamente aprendemos a ignorar o sofrimento porque fomos ensinados que ‘ser forte é aguentar calado’. Sentimentos e emoções são tratados como frescura ou falta do que fazer. Isso só adoece e piora qualquer tentativa de diálogo.”
Mudanças bruscas de comportamento, isolamento, alterações importantes no sono, aumento do consumo de álcool ou outras drogas, irritabilidade constante e falas como “vocês seriam melhores sem mim” ou “não aguento mais ser assim” estão entre os sinais que merecem atenção. Despedidas incomuns, distribuição de pertences e a tentativa de resolver pendências como se a pessoa estivesse encerrando ciclos também precisam ser observadas.
Graciane chama atenção ainda para o fato de que sofrimento nem sempre aparece por meio da tristeza evidente. “Muita gente não fica chorando, fica explosiva”, exemplifica. Ao mesmo tempo, ressalta que esses comportamentos são sinais e não permitem, isoladamente, estabelecer um diagnóstico ou concluir o que está acontecendo. “Precisam ser investigados por profissionais da área da saúde mental.”
A psicóloga também propõe uma reflexão sobre uma pergunta frequente: por que algumas pessoas esperam chegar ao limite para procurar ajuda?
“Será mesmo que elas esperam chegar ao limite para pedir ajuda ou alguém só viu agora, porque ela chegou ao limite?”, questiona.
Para Graciane, ainda existem barreiras históricas, sociais e econômicas que dificultam a procura por atendimento. Ela lembra que o sofrimento mental foi associado durante muito tempo à ideia de “loucura” e que parte desse estigma permanece. Soma-se a isso a dificuldade financeira para acessar psicoterapia em alguns casos e as limitações encontradas também na rede pública.
“A pessoa pensa: ‘tem gente pior que eu, não vou tirar vaga’, ou ‘não tenho condições de pagar por psicoterapia’”, exemplifica.
Outro fator é a cobrança por desempenho. Segundo Graciane, consolidou-se uma cultura na qual as pessoas são incentivadas a demonstrar resiliência, produtividade e felicidade constantemente. Nesse cenário, reconhecer que algo não está bem pode ser interpretado pela própria pessoa como fracasso.
“Procurar ajuda vira atestado de fracasso pessoal e julgamentos. Para homens, isso é ainda pior, porque vendeu-se uma imagem de que ‘homem não chora’ por toda uma história”, afirma.
Quando alguém finalmente consegue falar sobre aquilo que está sentindo, a maneira como é recebido também faz diferença. Graciane alerta para respostas que parecem oferecer conforto, mas podem acabar diminuindo a experiência de quem sofre.
“‘Vai passar’, ‘pensa positivo’, ‘tem gente em situação pior’. Isso é o que chamamos de positividade tóxica. Por favor, isso não ajuda”, enfatiza.
Da mesma forma, frases como “isso é frescura” ou “eu já passei por isso e não morri” devem dar lugar à tentativa de compreender aquilo que o outro está vivendo, sem fazer comparações.
“‘Eu não estou sentindo o que você sente, mas estou vendo que está doendo muito em você’ tem mais chances de acolher do que minimizar a angústia”, orienta.
Às vezes, uma pergunta simples pode abrir esse espaço: “Como posso te ajudar?”. Isso não significa, porém, assumir a função de um profissional ou acreditar que é necessário encontrar imediatamente uma solução.
“Em saúde mental, o foco não é dar conselhos e ter uma resposta objetiva para cada sofrimento. A área da saúde precisa de investigação, acolhimento, direção de tratamento e apoio”, explica.
O mesmo cuidado vale quando o assunto é suicídio. Para Graciane, falar abertamente e de maneira responsável é necessário e pode ajudar a romper o silêncio que muitas vezes acompanha quem está sofrendo.
“O mito do ‘não pode falar que incentiva’ foi derrubado há décadas. O silêncio destrói mais”, afirma.
Ela ressalta, entretanto, que boa intenção não substitui formação profissional. “Cada caso é um caso, e é sempre importante buscar ajuda de especialistas na área para a condução dessas situações. Repito: especialistas, porque o fato de uma pessoa ser bem-intencionada e ter vontade de ajudar não a qualifica como especialista na área da saúde mental.”
Entre crianças e adolescentes, a atenção também precisa fazer parte da rotina. Para Graciane, as novas gerações convivem desde muito cedo com exposição, comparação e cobrança nas redes sociais, além de uma velocidade de respostas que não existia em outros períodos.
“Essa geração é a primeira que cresce com a vida toda exposta e comparada nas redes sociais e com a agilidade das respostas. Historicamente, nunca tivemos tanta performance cobrada tão cedo”, avalia.
Queda brusca no rendimento escolar, abandono de atividades que antes davam prazer, isolamento no quarto, mudanças no grupo de amigos, irritabilidade extrema e alterações no sono ou no apetite estão entre os comportamentos que podem merecer atenção. Queixas frequentes de dores de cabeça ou de barriga sem causa orgânica identificada também podem aparecer.
A automutilação, segundo a psicóloga, nunca deve ser reduzida à ideia de que uma criança ou adolescente estaria apenas querendo chamar atenção. “Não é ‘chamar atenção’, é tentativa de regular uma dor interna insuportável”, afirma.
Falas como “queria dormir e não acordar mais” ou “ninguém liga” também precisam ser levadas a sério. Nesse momento, a orientação de Graciane é substituir o interrogatório pela presença.
“Trocar ‘o que você tem?’ por ‘tenho notado você mais quieto, estou aqui, quando quiser conversar’. Garantir que ele tenha um adulto de confiança fora da família também para confiar e conversar. E levar a sério: não dizer ‘é só uma fase’. Se for apenas uma fase, ela precisa de cuidados também.”
Para a psicóloga, essa mudança de postura ajuda a entender por que a prevenção não pode ser responsabilidade exclusiva dos consultórios. O cuidado com a saúde mental também está na forma como as pessoas convivem, trabalham, estudam, descansam e constroem seus vínculos.
“Temos uma grande missão enquanto cidadãos, porque cuidado com saúde mental não é só terapia individual, é prática coletiva diária.”
Isso significa, segundo ela, questionar ambientes baseados exclusivamente em competitividade, alta performance e na obrigação de demonstrar felicidade durante todo o tempo. Também significa permitir que as pessoas usufruam daquilo que conquistaram, descansem e tenham momentos de qualidade com quem amam sem se sentirem culpadas por isso.
“Não há como falar de saúde mental, em qualquer mês do ano, sem olhar as condições que nos cercam no dia a dia”, resume.
Ao final da última entrevista da série especial do Nossas Notícias, Graciane deixa uma mensagem para quem acredita que precisa enfrentar sozinho tudo aquilo que está vivendo.
“Se você está lendo isso se sentindo no limite, quero te dizer algo que a história nos ensina: nenhum sofrimento humano foi feito para ser suportado sozinho.”
Para ela, procurar alguém e reconhecer que precisa de cuidado não deve ser entendido como fraqueza.
“Durante séculos nos venderam a ideia de que pedir ajuda é fraqueza, mas é o contrário: numa sociedade que te isola e te cobra o tempo todo, procurar alguém é um ato de coragem e resistência.”
E completa: “Você não precisa ter todas as respostas hoje. Você não precisa resolver tudo hoje. Você só precisa de um olhar respeitoso para sua própria vida. A dor que você sente é real, tem história, tem contexto, e ela pode mudar de lugar com ajuda. Você é alguém passando por um momento muito difícil numa sociedade muito difícil, e você merece cuidado.”
A campanha termina. A necessidade de ouvir, acolher, observar e procurar ajuda quando necessário, não.
“Setembro acaba, mas o seu direito de ser cuidado não.”