
RIO NEGRINHO. Na terceira reportagem da série especial do Nossas Notícias sobre o Setembro Amarelo, a reportagem conversou com a psicóloga Santa Cecília Marques Herzog sobre um assunto que ainda é cercado por dúvidas, receios e até mesmo mitos: como perceber que alguém pode estar enfrentando um sofrimento emocional intenso e, principalmente, como se aproximar e oferecer ajuda.
Santa Cecília é psicóloga formada pela Universidade de Passo Fundo e doutora em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Atualmente, atua como professora no stricto sensu da Universidade do Contestado e na área da Psicologia, atendendo no Sindicato dos Trabalhadores.
Uma das dificuldades quando se fala em prevenção ao suicídio é que nem sempre o sofrimento é verbalizado. Muitas pessoas não conseguem dizer claramente aquilo que estão enfrentando, mas podem demonstrar que algo não está bem por meio de mudanças no comportamento.
“Podem aparecer mudanças importantes, como isolamento, perda de interesse por atividades que antes eram significativas, alterações de sono e alimentação, irritabilidade, desesperança, queda no autocuidado ou falas que expressem sensação de ser um peso para os outros ou de que nada vai melhorar”, explica Cecília.
Isso não significa, porém, que qualquer mudança seja uma indicação de que aquela pessoa pensa em suicídio. A psicóloga ressalta que é preciso evitar conclusões precipitadas e observar o contexto.
“Um sinal isolado não permite concluir que alguém esteja pensando em suicídio. O mais importante é observar mudanças persistentes e conversar de maneira acolhedora.”
Alguns comportamentos, entretanto, precisam ser levados a sério. Falas sobre morte, desaparecimento ou despedidas, dizer que não quer mais viver, demonstrar desesperança intensa, aumentar repentinamente o isolamento ou começar a organizar assuntos pessoais de uma maneira incomum são situações que, segundo Santa Cecília, merecem atenção.
“Quando há suspeita de risco, é importante perguntar diretamente, não deixar a pessoa sozinha se houver perigo imediato e buscar ajuda profissional ou de emergência”, orienta.
E justamente perguntar é algo que ainda provoca receio. Existe um medo comum de que falar sobre suicídio com alguém que está sofrendo possa fazer com que aquela pessoa passe a pensar nisso. Cecília explica que essa ideia não corresponde à forma adequada de abordar o problema.
“Esse medo ainda existe, mas perguntar de forma direta, calma e acolhedora não ‘coloca a ideia na cabeça’ da pessoa. Pelo contrário, uma conversa aberta pode permitir que ela se sinta ouvida e que o sofrimento seja reconhecido.”
A pergunta, inclusive, pode ser direta.
“Você tem pensado em morrer ou em tirar a própria vida?”. Para a psicóloga, o mais importante é que isso seja feito sem julgamento e com disposição verdadeira para ouvir a resposta.
Se a pessoa disser que sim, aquele momento não deve se transformar em uma tentativa desesperada de encontrar as palavras perfeitas. Também não é necessário assumir o papel de um profissional de saúde mental.
“A prevenção é uma responsabilidade compartilhada. Profissionais de saúde mental têm um papel técnico fundamental, mas familiares, amigos, professores, colegas de trabalho e a comunidade também podem contribuir ao perceber mudanças, oferecer escuta, reduzir o isolamento e ajudar a pessoa a chegar aos serviços de saúde.”
Para Cecília, muitas vezes ajudar começa simplesmente pela presença.
“Ninguém precisa fazer o papel de psicólogo; muitas vezes, o mais importante é estar presente, levar a sério o sofrimento e ajudar a buscar atendimento adequado.”
Nesse processo, a maneira como se escuta também faz diferença. Quem enfrenta um sofrimento intenso pode sentir vergonha, medo ou dificuldade para falar sobre aquilo que está vivendo. Uma reação de julgamento ou a tentativa de minimizar a situação pode interromper justamente uma conversa que poderia abrir caminho para a ajuda.
“A escuta sem julgamento ajuda a pessoa a falar sobre aquilo que muitas vezes ela tem vergonha, medo ou dificuldade de compartilhar. Não significa concordar com o pensamento suicida, mas reconhecer o sofrimento e demonstrar disponibilidade para compreender.”
Frases aparentemente simples e muitas vezes utilizadas na tentativa de consolar também precisam ser repensadas.
“Frases como ‘isso é falta de força’, ‘você tem tudo para ser feliz’ ou ‘pense na sua família’ podem aumentar a culpa e fechar o diálogo. Uma postura acolhedora facilita a construção de confiança e a busca de ajuda”, alerta.
O mesmo acontece quando o sofrimento é comparado ao de outras pessoas ou quando se tenta solucionar rapidamente uma situação complexa com conselhos.
“Dizer ‘isso vai passar’, ‘você precisa ser forte’ ou ‘há pessoas com problemas maiores’ pode fazer a pessoa se sentir ainda mais incompreendida.”
Quando alguém relata pensamentos de morte ou suicídio, a situação exige uma avaliação cuidadosa. Cecília explica que o profissional busca compreender não apenas a existência desses pensamentos, mas todo o contexto em que eles aparecem.
“É necessário avaliar o contexto e a intensidade do sofrimento, a presença e frequência dos pensamentos, se existe intenção de agir, se houve planejamento, acesso a meios, histórico de tentativas ou comportamentos de autoagressão, uso de álcool ou outras substâncias, fatores de proteção, rede de apoio e condições atuais de segurança.”
Ela ressalta que essa avaliação não pode ser tratada como uma simples lista de perguntas.
“A avaliação não deve ser feita de forma mecânica: é preciso compreender a pessoa e a situação como um todo. Quando existe risco elevado ou imediato, a prioridade é a proteção da vida e o encaminhamento adequado para atendimento de urgência.”
Como professora, Cecília também acompanha a formação de profissionais que futuramente poderão estar diante dessas situações. Segundo ela, a graduação em Psicologia oferece conhecimentos relacionados à psicopatologia, avaliação psicológica e clínica, ética profissional e estratégias para lidar com momentos de crise. Dependendo da instituição, estágios e supervisões também aproximam os estudantes desse tipo de atendimento.
Mas o diploma, segundo ela, não encerra esse processo.
“A graduação é apenas uma etapa: a atuação profissional responsável exige supervisão, formação continuada e conhecimento dos serviços da rede de atenção.”
Para quem pensa em seguir a Psicologia, a palavra escolhida pela profissional é “responsabilidade”.
“A Psicologia é uma profissão que exige estudo, ética, escuta, autoconhecimento e disposição para continuar aprendendo. É uma área muito humana, mas também exige preparo técnico. Quem pensa em seguir esse caminho precisa compreender que cuidar do outro começa por desenvolver uma postura profissional séria, respeitosa e acolhedora.”
Já para quem está do outro lado, enfrentando um período difícil ou até mesmo pensamentos suicidas, Santa Cecília escolhe outra mensagem: pedir ajuda.
“Você não precisa enfrentar tudo sozinho e não precisa esperar chegar ao limite para procurar apoio. Falar com alguém de confiança e buscar um profissional de saúde pode ser um primeiro passo.”
E a orientação não vale somente durante o Setembro Amarelo.
“Prevenção não acontece apenas em setembro. Sofrimento emocional intenso merece atenção em qualquer época do ano.”
Em situações de risco imediato, a orientação é procurar atendimento de urgência ou emergência e permanecer acompanhado. O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia.
A série especial do Nossas Notícias durante o Setembro Amarelo busca abordar diferentes aspectos relacionados à saúde mental, trazendo informação, orientação e a perspectiva de profissionais sobre situações que podem fazer parte da realidade de muitas pessoas.
Nós estamos junto na valorização da vida!