
RIO NEGRINHO. Uma palestra sobre gravidez na adolescência e educação sexual, realizada na última sexta-feira (10) na Escola Aurora Siqueira Jablonski, gerou polêmica entre alguns pais e alunos, descontentes com a forma como os assuntos foram abordados.
Ao que tudo indica, a atividade vem sendo realizada em várias escolas e a primeira informação sobre o assunto chegou até nossa reportagem na sexta- feira (10), através de uma seguidora, informando sobre críticas à palestra e se colocando a favor da iniciativa.
Na sequência, ontem (16), fomos procurados pela mãe de uma aluna, que autorizou a filha a contar detalhes do que aconteceu e os motivos que levaram à questionamentos sobre a dinâmica das apresentações. Ela explicou que não é contra a educação sexual, mas disse que ficou surpresa com o relato da menina.
Nesta reportagem você confere a versão de mãe e filha, da palestrante e também da direção da Escola Aurora, com quem conversamos pessoalmente nesta manhã.
O que a estudante contou
A aluna relatou que os palestrantes começaram entregando papéis para que os jovens escrevessem suas dúvidas. Em seguida, o foco se voltou para o lado negativo da gestação.
“A palestrante começou a dar exemplos de corpos femininos. Mostrou fotos de barrigas flácidas com estrias e colocou a gravidez como se fosse uma coisa muito ruim”.
Ela também mencionou que a palestrante deu exemplos de abusos na hora do parto, citando que, no SUS, por insistência no parto normal, o canal vaginal é cortado.
“Deu o exemplo de uma mulher que teve um filho de 6 quilos e precisou levar 54 pontos, … e nisso, já tinha um menino que estava passando mal”.
Segundo a estudante, o colega chegou a desmaiar na sala de aula.
“Os palestrantes agiram como se o mal-estar dele fosse algo normal, que ia acontecendo no nosso cotidiano”.
O ponto de maior constrangimento, conforme a jovem, foi o uso de métodos práticos de forma invasiva. Após a teoria, a palestrante ensinou sobre higiene íntima feminina e masculina, “na frente de todo mundo e sendo muito específicos”.
Em seguida, apresentou uma prótese peniana e começou a explicar detalhes, como a aparência do órgão quando “está ereto”, deixando-a “morrendo de vergonha”.
A adolescente disse que o constrangimento foi alto, pois sentiu que não precisava saber daqueles detalhes, daquela forma.
De acordo com ela, a situação piorou na demonstração de métodos contraceptivos.
“Eles entregaram uma camisinha masculina, uma pra cada um. Aí, ela falou que era pra apertar pra ver se estava furado. […] Aí, depois, ela falou pra gente abrir e ensinou como que colocava.”
A aluna revelou que se sentiu coagida a participar da demonstração com a prótese, pois de acordo com ela, a palestrante ameaçou escolher alguém “a dedo”, caso ninguém se voluntariasse.
“Acabou que eu fui. Porque eu preferi que fosse eu do que meus amigos, que também estavam constrangidos”, desabafou.
A jovem falou que houve um momento de grosseria por parte do palestrante, quando um menino tentou encher a camisinha com a boca.
De acordo com ela, o palestrante teria reagido, falando:
“A boca você coloca. Mas, no ‘pau’ de borracha, vocês não queriam pôr.”
A adolescente finalizou seu relato questionando o método.
“Eu acredito que podia ter sido falado de uma maneira um pouco mais leve… Se a intenção era conscientizar, eles deviam conversar mesmo, não aterrorizar os próprios estudantes”.
Ela ressaltou que a palestra deu a entender que “todo mundo da sala já tinha uma vida sexual ativa,” o que, segundo ela, “não é verdade”.
“Sou contra à forma como a palestra foi ministrada”
A mãe da menina, que pediu para não se identificar e nem identificar a filha, contou que a adolescente é estudante do 8º ano e tem 13 anos.
“Ela me ligou, tinha acabado de sair da escola e falou, com uma voz bem desesperada: ‘eles fizeram eu colocar uma camisinha num pau'”.
Segundo ela, a filha, traumatizada, repetiu várias vezes que não queria nunca ter filhos.
A seguidora destacou ainda que sentiu orgulho da coragem da estudante, que imediatamente após a palestra, procurou a diretora para contar o que havia acontecido e o que estava sentindo.
“A pior parte realmente que eu vejo foi essa, né? Levar a gravidez aterrorizando eles e fazerem cada um deles ali […] a colocar a camisinha no pênis. Foi extremamente de mau gosto”.
Ela também reforçou que não é contra a educação sexual.
“O que eu sou contra é a forma que foi ministrada essa palestra”.
A mãe falou que segundo a filha, nem todos os colegas teriam a mesma abertura com seus pais e aconselhou as famílias a procurarem a escola e conversar com seus filhos, para saber realmente o que aconteceu.
“Os colegas dela falaram que eles não tem coragem de contar para os pais o que aconteceu. A minha filha tem uma abertura comigo. Então, ela saiu de lá, a primeira coisa que fez foi me ligar, mas ela falou que a maioria não consegue. Minha intenção é que todos os pais dos alunos que passaram por essa palestra tenham conhecimento do que aconteceu, procurem a escola para saber, porque os alunos não têm coragem de contar. Então é muito importante que eles vão até a escola e saibam o que aconteceu para poder orientar seus filhos melhor, é muito importante” concluiu.
O outro lado
Também ontem começamos a conversar com a palestrante, que hoje pela manhã enviou uma nota sobre a atividade.
“Em conformidade com as diretrizes do Programa Saúde na Escola (PSE), uma iniciativa intersetorial dos Ministérios da Saúde e da Educação, a rede municipal de ensino de Rio Negrinho estava realizando um ciclo de palestras com o tema “Saúde sexual e reprodutiva e prevenção do HIV/IST”.
A ação, conduzida pela Assistente Social Escolar e Educacional e pelo Psicólogo Escolar e Educacional da Secretaria de Educação, aconteceu visando fortalecer o desenvolvimento integral dos estudantes.
O objetivo foi conscientizar os alunos sobre os riscos sociais e psicológicos de uma gravidez na adolescência e os meios de prevenção, bem como as formas de se proteger contra Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs).
Os encontros promoveram um discurso aberto, garantindo um espaço seguro para que os estudantes tirassem suas dúvidas, e compreendessem os direitos assegurados a adolescentes em caso de gestação, inclusive em se tratando gestação decorrente de estupro de vulnerável, mesmo que consentido. Pois, segundo o ECA, relação sexual com menor de 14 anos é estupro, independente se foi consentido. Que é o caso de namoros entre adolescentes menores de 14.
Para a condução das palestras, foram empregados materiais didáticos e demonstrativos essenciais para uma abordagem clara e eficaz dos temas. Dentre os recursos, destacam-se o uso de uma prótese peniana para a correta demonstração da colocação de preservativos, um quadro expositivo com os diversos métodos contraceptivos disponíveis, um modelo do sistema reprodutor feminino para fins educativos, além de preservativos masculinos e femininos.
É importante ressaltar que todos os materiais foram cedidos pelas unidades de saúde do município, o que reforça a parceria intersetorial do Programa Saúde na Escola, sendo materiais utilizados pelos profissionais de saúde para fins de prevenção.
A utilização desses recursos visuais e táteis foi fundamental para promover uma abordagem objetiva e desmistificada sobre a saúde sexual e reprodutiva, permitindo aos alunos visualizar e compreender de forma prática e correta os métodos de prevenção e seu correto uso, como demonstrar quando entra ar na camisinha, fator que pode colocar em risco a saúde e gerar gestações indesejadas.
Adicionalmente, foram utilizadas imagens impressas que ilustravam uma mulher durante a gestação e as alterações corporais, como a aparência da barriga, após o parto, com o intuito de apresentar de forma visual e realista as transformações físicas decorrentes de uma gravidez. Tais materiais são essenciais para se trabalhar os impactos psicológicos e sociais que atingem as gestantes durante e após o parto, não romantizando uma gestação na adolescência, pois a realidade não é um conto de fadas.
No mais, os termos utilizados não foram de forma pejorativas nem depreciativa, de forma que colocasse em risco a integridade emocional dos estudantes, podendo ser comprovados com os professores, da escola Aurora, que acompanharam as atividades.
Ademais, durante todas as atividades os alunos participaram de forma ativa e sem constrangimento, sendo inclusive, perguntado durante as atividades se todos estavam bem com as informações repassadas onde foi apontado que sim.
Sempre deixamos muito aberto para os alunos que não queiram participar que fiquem à vontade para saírem de sala.
Ademais, vale ressaltar que é papel do assistente social e do psicólogo trabalhar as questões de violências sofridas pela sociedade, principalmente em se tratando em violência obstétrica, fato que ainda acontece em nosso país, infelizmente.
Em busca de preparar os meninos, principalmente, que no futuro serão pais, para que sejam homens sábios, participativos e presentes durante este momento tão delicado na vida da mulher, que é o trabalho de parto.
Com isso, foi relatado alguns casos de violências sofridas por algumas mulheres, inclusive essa que vos escreve.
Outrossim, vale salientar que o Brasil em 2025 teve 62,57 de mortes de gestantes adolescentes a cada 100mil, sendo maior que a média nacional. Também, nos últimos 5 anos o Brasil teve mais de 600mil gestações na adolescência, não podendo ser negligenciado tais dados preocupantes, conforme Ministério da Saúde.
Entendemos que ter um filho é algo maravilhoso, porém nem toda gestação é um conto de fadas é há muitos desafios que a mulher tem que superar, principalmente quando se trata de gestação na adolescência, cujos riscos são ainda maiores, seja físico, emocional ou social”.
O que disse a direção da Escola Aurora
A equipe do Nossas Notícias procurou a direção da EMEB Professora Aurora Siqueira Jablonski na manhã desta sexta-feira (17) para obter um posicionamento sobre a palestra.
Segundo a direção, a palestra em questão não foi uma iniciativa da unidade de ensino. A diretora informou que atividades com a mesma equipe e sobre temas diversos, como Outubro Rosa e Setembro Amarelo, ocorrem na escola quase todos os meses, sendo todas administradas pela Secretaria Municipal de Educação. Ela esclareceu que a escola não pode se recusar a receber as palestras, pois a Secretaria de Educação é a responsável pela gestão administrativa.
A diretoria reforçou, ainda, que em um primeiro momento os professores da unidade não estavam presentes nas salas de aula, e que a escola não responde de maneira alguma pelo conteúdo e pela forma com que a palestra foi conduzida pela equipe externa.
Prefeitura Municipal e Secretaria de Educação também foram procurados
A Assessoria de Imprensa da Prefeitura de Rio Negrinho e a Secretaria Municipal de Educação também foram procuradas, mas não haviam respondido até a publicação desta matéria. O Conselho Municipal de Educação afirmou que ainda não havia sido informado formalmente sobre o ocorrido.
O espaço segue aberto para manifestação de todas as partes envolvidas.
A palestrante enviou algumas das imagens apresentadas durante a atividade








