
RIO NEGRINHO. Moradora do bairro Campo Lençol, Laíza Bayer é uma das filhas de Gerson Bayer Baum, que faleceu aos 54 anos, no dia 23 de dezembro.
Porém, a tristeza do momento não impediu que ela e os irmãos – Matheus e Luisa – tomassem uma decisão: doar os órgãos do pai, como uma forma de homenageá-lo pelo legado que deixou.
O procedimento aconteceu, de forma inédita, através do hospital, no dia 24 de dezembro, véspera de Natal.
E foi para compartilhar detalhes dessa história inspiradora que Laíza recebeu a reportagem aqui do Nossas Notícias em sua casa na última semana.
Laíza, seu esposo – Felipe Padilha – e Gerson, moravam na mesma casa. Ela contou que o pai começou a passar mal no dia 19.
“Acordei pelas seis da manhã, fui no banheiro e ele me falou que estava ruim, com dor de cabeça. Dei um remédio e fui deitar. Acordei novamente, por volta das 08h30 e ele comentou que a dor não havia passado”.
O pai, segundo a filha, chegou também a lhe pedir uma bala, pois disse que estava com um gosto amargo na boca.
“Ele ainda pediu um copo de água mas quando dei, falou que não conseguia tomar porque estava com um lado já paralisado. O levamos para o hospital e no caminho, já começou a ‘enrolar a língua’ ao falar”, detalhou.
Gerson ficou internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), onde seu estado de saúde foi acompanhado diretamente pela família até ser constatada oficialmente sua morte cerebral.
Foi quando, conforme Laíza, profissionais do hospital perguntaram se os familiares não teriam a intenção de doar dois rins e duas córneas de Gerson, já que os órgãos estavam em pleno funcionamento.
“Conversamos, eu e meus irmãos, e decidimos por autorizar o procedimento, em homenagem a pessoa que nosso pai foi. Um homem que sempre ajudou muito as pessoas, sem esperar algo em troca. É reconhecido, por amigos de vários bairros e lugares, por ter sido muito prestativo. Depois do divórcio, nos criou sozinho e com muita responsabilidade. Nos ensinou o certo e o errado, … nunca nos faltou nada! Sinto muito orgulho de ser sua filha e do ser humano exemplar que foi. Por isso a escolha por doar seus órgãos! Temos certeza de que, onde está, ficou feliz por ter podido, pela última vez, ajudar mais algumas pessoas aqui na Terra”.
Laíza enfatizou que desta forma, ajudando outras pessoas a terem qualidade de vida, Gerson continua vivo neste mundo.
“Acredito que os órgãos do meu pai foram um presente de Natal para quem os recebeu. E olha que ironia da vida! Cerca de uma semana antes de seu falecimento, uma pessoa veio aqui em casa oferecer um seguro de vida e ele ainda brincou, dizendo que não queria, pois não ia morrer agora”, lembrou.
Além de perder o pai na antevéspera de Natal, três dias depois, em 26 de dezembro, Laíza perdeu o sogro, vítima de um infarto fulminante. Foi um ano que para a família terminou de forma inesperada – para dizer o mínimo -, mas provocou reflexões que são lições de vida não só para eles mas para cada um de nós, em especial neste ano que se inicia.
“No caso do meu pai, mais especificamente, eu queria ter tido mais tempo para falar do meu amor por ele. E o conselho que tenho a dar para cada pessoa que conhecer nossa história é que cuidem de quem amam, pois a vida é um sopro. De repente, sem a gente esperar, as pessoas simplesmente podem se ir, sem tempo para despedidas, para um beijo, um abraço, um carinho, … Sem tempo para um último ‘Eu te amo’ ”.
Outra inspiração que essa experiência traz é que Laíza decidiu que será uma doadora de órgãos.
“Quando me for, quero ser também a realização de uma esperança para quem estiver na fila de transplante. E espero que nossa história, incentive outras pessoas a adotarem essa iniciativa”.
Gerson Bayer Baum deixou enlutados filhos, nora, genro, neto, irmãos e demais parentes e amigos.
Seu corpo foi velado na capela São Gabriel 1 e sepultado no Cemitério São José, no Lageado (PR). Lá, ficou próximo às sepulturas de sua mãe e de seu pai.
Como foi o procedimento
A Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante – CIHDOTT, da Fundação Hospitalar Rio Negrinho, realizou na véspera de Natal, esta que foi a primeira captação de órgãos para transplante. A informação foi divulgada oficialmente pela direção do hospital no dia 27.
Conforme a nota oficial, após a análise e avaliação da equipe especializada da Central Estadual de Transplantes de Santa Catarina – SC Transplantes – que esteve em Rio Negrinho realizando a captação, os órgãos seguiram para Florianópolis (SC)
A Central coordena as atividades de transplante em âmbito estadual, através da implementação e aplicação das listas únicas de receptores de órgãos e tecidos, respeitando critérios de compatibilidade, urgência e tempo de espera, e assim verifica a destinação aos receptores ideais.
O diretor administrativo da Fundação Hospitalar, Claudio Marmentini, destacou a importância da captação de órgãos, sendo um serviço inédito no Hospital, e enfatizou todo o auxílio que é feito durante o processo.
“Foi o primeiro procedimento de captação de órgãos em nosso hospital. Agradecemos toda a equipe envolvida nesse procedimento e ao mesmo tempo que prestamos condolências à família enlutada, acreditamos que este gesto de generosidade ao próximo, que foi às vésperas do Natal, sirva de incentivo, visto que é um ato nobre que pode salvar vidas”.