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O LUTO E OS CÃES

Kelen Sbolli é adestradora profissional de cães. Proprietária da Vita Canis, atende em Curitiba PR Rio Negrinho e em várias outras cidades do Sul do Brasil. Escreve para o Nossas Notícias todos os domingos. Contatos com a colunista podem ser feitos pelo zsbolli@yahoo.com.br *************************************** Todos nós já passamos por perdas irreparáveis. A dor é tanta que parece não passar nunca. A saudade se instala mas com o tempo nos acostumamos a ela e seguimos em frente. Mas e os cães? Eles podem sentir tristeza, saudades ou depressão por um amiguinho ou pelo tutor que já se foi? Temos inúmeros exemplos de cães que esperam por muito tempo por seu tutor que faleceu e até mesmo ficando sob seu túmulo por semanas. Talvez o exemplo mais famoso seja do cão Akita Hachiko, do filme “Sempre ao seu lado”. Nem todos os cães reagem da mesma maneira Nem todos os cães reagem da mesma maneira, assim como nós, humanos. Mas não é incomum o cão apresentar tristeza, prostração, parar de comer e beber, uivar, latir em demasia, ter movimentos compulsivos, destruição fora do normal e até mesmo uma depressão profunda que pode levar a morte. Os pesquisadores ainda não tem certeza se o cão sabe conscientemente que seu amigo ou seu dono morreram ou apenas sofrem com a ausência. Alguns parecem ter uma percepção maior do que é a morte. Tanatologia A Tanatologia comparativa é uma disciplina que estuda a morte e suas práticas envolvidas. No entanto, até o momento este estudo é quase exclusivo às atividades humanas. Ainda é incipiente o estudo de como os animais lidam com a morte. Sabe-se que a compreensão da morte envolve 4 componentes:

  1. A inevitabilidade. É a consciência de que todos os seres vivos acabarão morrendo um dia.
  2. A irreversibilidade: Uma vez morto, o indivíduo não pode retornar a vida.
  3. Não funcionalidade: Depois de morto o indivíduo não pode perceber, sentir, pensar ou agir.
  4. Causalidade: Compreender que a falência dos órgãos vitais causam a morte.
Somente a partir dos 10 anos de idade é que o ser humano é capaz de compreender estes 4 componentes em sua totalidade. Animais e observação Os primeiros estudos da Tanatologia nos animais basearam-se na observação de alguns exemplos pontuais como o caso da baleia Orca que carregou seu filhote morto por 17 dias até que finalmente o largou. Os cientistas viram neste comportamento uma maneira de sofrimento. Os elefantes, por exemplo, são conhecidos por terem uma relação ritual com os ossos de seus falecidos e por lamentar a morte de parentes. Uma dessas explorações rituais de ossos foi capturada em vídeo em 2016 por um estudante de doutorado que estudava elefantes na África. Membros de três diferentes famílias de elefantes foram visitar o corpo de uma falecida matriarca, cheirando, tocando e passando repetidamente pelo cadáver (fonte: https://vegazeta.com.br/sim-os-animais-ficam-de-luto/). Os chimpanzés também tem sido observados quanto à forma com que lidam com seus mortos. Observou-se que em um grupo de chimpanzés em cativeiro, sua matriarca morreu e os demais chegaram perto, checaram seus sinais vitais e limparam seus pelos com palha. Inúmeras outras observações foram feitas, o que levou alguns cientistas a concluírem que dos 4 componentes que um ser humano tem ciência sobre a morte, os animais que tem grande capacidade cerebral e que tem repetidas experiências de morte em sua sociedade, compreendem apenas 2 que são: a Irreversibilidade e a Não funcionalidade. Ainda é desconhecido o fato se eles conseguem perceber que todos os seres vivos vão morrer um dia e as causas biológicas da morte. No entanto, é quase unânime a ideia de que os animais domésticos como os cães e gatos tendem a sentir mais a morte do que qualquer outro animal na natureza. Mas será verdade ou é apenas nossa impressão por estarmos extremamente ligados a eles e, portanto percebemos melhor seus sentimentos? O fato é que eles tem a capacidade de ficarem tristes, se deprimirem e até mesmo morrerem pela falta que seus companheiros fazem. “Ainda não sabemos se sentem o luto com toda a sua complexidade, mas é fato que ficam tristes”, é o que afirma o veterinário e etólogo Mauro Lantzman. A Sociedade Americana para Prevenção da Crueldade aos Animais (SPCA) conduziu uma pesquisa em 1996, chamada Companion Animal Mourning Project (Projeto de Estudo do Luto em Animais de Companhia). O estudo, que foi realizado com cães, descobriu que:
  • 36% dos animais comiam menos que o habitual após a morte de um animal companheiro.
  • 11% pararam completamente de se alimentar.
  • 63% vocalizaram mais que o normal, ou se tornaram mais quietos.
  • 66% dos cães demonstraram no mínimo quatro mudanças comportamentais após perderem um animal de companhia.
Além disso, o estudo indicou que os cães que sobreviviam à perda de outros mudavam a quantidade de horas de sono e o local onde dormiam. Mais da metade desses animais tornaram-se mais afetuosos e apegados aos seus tutores. E o que podemos fazer para minimizar o sofrimento deles? 1 – Deixe seu cão ver o corpo do seu amiguinho. Isto pode melhorar seu entendimento que seu companheiro está morto e lidar melhor com a perda. 2 – Mantenha sua rotina normal. Mantenha os horários de refeição e passeios mas aumente um pouco sua atividade física. 3 – Se ele estiver com falta de apetite, coloque um pouco de ração úmida ou algo que ele goste muito para estimular o apetite. Se ficar sem comer mais de dois dias, leve ao veterinário. 4 – Caso a morte tenha sido de outro cão, não retire imediatamente sua caminha e suas coisas. É importante que seu cão sinta o cheiro do companheiro por um tempo para acalmá-lo. 5 – Dê mais carinho e atenção. Ele também precisa de conforto emocional. 6 – Tenha paciência. Ele tem um tempo para sentir a tristeza, assim como nós. Se o tempo for muito longo com uma mudança expressiva de comportamento, consulte um veterinário e um adestrador. 7 – Se a morte for do tutor, você como parte da família, deve manter a rotina que o antigo dono tinha com o cão e fazer outras atividades que estreitem seus laços com ele. Como já vimos em artigos anteriores, o cão é um animal senciente, ou seja, ele sente toda a espécie de sentimentos, tristeza, alegria, dor, frustração etc. então, com certeza algum tipo de luto ele deve sentir, o que é mais um motivo para os respeitarmos e tê-los como nossos melhores amigos. Como disse Charles Darwin, “as diferenças de complexidade entre a mente dos seres humanos e dos animais são apenas em grau, não em gênero”.]]>

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